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quinta-feira, fevereiro 18, 2010

O juiz e a cabra - parte 3

O juiz pensou por alguns segundos. O que será que ele quiz dizer com aquilo? Teria suspeitado de algo?

- Como assim não é sua? O senhor mesmo a reconheceu. Trouxe até testemunhas que confirmaram a identidade da cabra – disse o juiz, tomando a dianteira naquela perigosa conversa. – Ou o senhor e as testemunhas disseram inverdades?

- Não, doutor. Eu tinha reconhecido a cabra porque parecia mesmo a minha cabra. Mas depois eu vi que não era. Ela é diferente. Por isso estou devolvendo.

- Mas, homem, esses bichos mudam mesmo. Essa experiência de ter ficado longe do senhor, de casa, deve ter abalado um pouco a bichinha. Vai ver foi algo que ela comeu por aí... Logo, logo, passa. Devolva, não. Pode levar.

- Doutor, mudança pouca até entendo. Mas acontece que uma cabra não pode diminuir de tamanho. Essa é menor que a minha cabrinha!

O juiz não sabia que sistema métrico ou que elemento de referência o camponês usava para medir seus animais, mas o instinto de honestidade daquele homem poderia causar problemas. Se ele levasse adiante a questão, iria chamar a atenção do povo e seria necessário tomar providências... Bem que seu pai dizia para ele fazer concurso para cartorário. Lidar com papel é menos complicado do que lidar com gente. O papel aceita tudo. Basta uns carimbos aqui e acolá...

- Doutor, posso deixar a cabrinha aqui, então? Ou levo para a delegacia? perguntou o cidadão, querendo trazer um pouco de prática ao diálogo.

O juiz, cercando o homem, foi direto ao ponto. – Impossível devolver. Ou o senhor leva essa cabra já ou fica sem cabra nenhuma, entendeu?

O matuto entendeu o recado e levou a cabra embora, deixando o magistrado a sós com a justiça dos homens.

Fim

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

O juiz e a cabra - parte 2

O juiz ficou atônito com a informação de que havia comido a cabra em poder da força policial e que deveria ser restituída ao dono.

- Tem algum problema, doutor? – perguntou um dos dois policias que guarneciam a cidade.

- Se a palavra “peculato” significa algo para vocês dois, tem – respondeu o magistrado, antevendo problemas.

- O que faremos então, doutor? O dono do animal que virou churrasco vai reclamá-lo na delegacia.

- Comprem uma cabra igualzinha e dêem para ele. Nem vai perceber a diferença. Vão, vão, depressa!

A dupla seguiu em diligência. Mais tarde, procuraram o juiz:

- Doutor, tudo em ordem. Reposição feita.

No dia determinado, o dono compareceu à delegacia e resgatou a cabrinha.

O juiz suspirou aliviado e retomou o seu expediente de uma hora diária.

Poucos dias depois, chamam o magistrado no gabinete:

- Doutor, tem um cidadão aqui querendo falar com o senhor (cidade pequena é assim, não precisa marcar hora).

- Mande entrar, disse o juiz.

- Ele não pode. Quer conversar com o senhor aqui fora.

- Como não pode? Não precisa ter cerimônia (a cidade era tão pequena e ordeira que quando o juiz entrava no restaurante, todos se levantavam).

- Ele pode, quem não pode é a cabra. Ela pode fazer feio aí dentro.

O juiz ficou surpreso. O que aquele sujeito queria com ele? E ainda trouxe a cabra... Na certa, queria agradecer, trazia algum litro de leite de cabra, essas coisas. O povo daquela cidade era muito dado a essas gentilezas para com as autoridades. Levantou-se e foi à porta.

- Tarde, doutor.

- Tarde. O senhor queria me ver?

- Sim. Sabe o que é doutor? Não posso ficar com essa cabra.

- Uai, homem, por quê?

- Essa cabra não é minha.

Fim da parte 2. Continua...

A pedagogia dos corrompidos