
Em sua jaula de vidro,
o orangotango triste
assiste a um desfile macabro.
O espetáculo bizarro consiste
em um monte de humanos sem educação
fazendo caretas e chistes
para um injustiçado cativo.
Pesaroso, o macaco pensa consigo:
"No abrigo estou seguro e isso me conforta.
Já pensou se eu estivesse do outro lado do muro,
além desta porta?"
E assim o macaco-estátua,
empalhado em nostalgia,
faz homenagem pungente
à nossa covardia.
A cela transparente,
e o cenário de mentira,
são um reflexo da falsidade
que macaqueia na alma da gente.
Orangotango, meu amigo,
Saíste melhor que a encomenda.
Foste contratado para palhaço peludo,
Mas você imita à perfeição
as mazelas do mundo.
Nenhum artista dito humano
jamais me tocou assim.
Bendito orangotango,
se isso te consola,
saiba que sempre serás
mais que um astro para mim.
Não existe nesta cidade
ingresso mais caro do que o que paguei hoje
para ver o orangotango triste.
O bilhete custou a sua liberdade
e ainda mais alguns reais.
