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domingo, janeiro 03, 2010

Golpe de misericórdia

Retrocedo ao tempo do serviço militar obrigatório, a um dia em que tive uma desavença com um colega da caserna. Não lembro o moto da discussão, nem quem tinha a razão, mas lembro-me de que ele jurou me partir em dois – ameaça considerável, pois se ainda hoje sou desguarnecido de músculos, na época era muito mais franzino.

Naquele dia eu estava ressabiado já que o outro recruta poderia ir à forra a qualquer momento. A inquietação não impediu, porém, de tirar uma sesta num banco de cimento no pátio. Ignoro quanto tempo cochilei, só recordo que acordei subitamente com o toque da corneta convocando a companhia. O capitão já aguardava os subordinados para instruções e todos já se dirigiam para o ponto de encontro de costume.

Por reflexo, tentei levantar-me num impulso, mas desabei no chão. Minhas pernas estavam dormentes e desobedeciam meus comandos. Eu simplesmente não conseguia me sustentar em pé. Estava naquela situação ridícula, quando noto alguém se aproximar. Acertou quem disse que era o cara que queria me usar como saco de pancada.

Ele chegou mais perto sem dizer uma palavra. Eu já estava até sentindo o impacto do seu coturno no meu estômago. Ou um soco na cara. Mas ele só esboçou um sorriso com o canto a boca e me estendeu a mão. Aceitei como um pedido de armistício entre nós. Ele me puxou para cima e aguardou até a circulação das minhas pernas voltar. Cambaleante e envergonhado, juntei-me aos demais.

Esqueci os motivos que provocaram a discussão anterior. Nem sei mais quem tinha razão. Isso não importa. Mas lembro que, com aquele gesto, ele demonstrou grande superioridade moral. Se estava errado, reconheceu o erro sem qualquer constrangimento aparente. Se estava certo, a mão estendida foi o golpe de misericórdia contra mim.

Até o fim do serviço militar obrigatório não nos tornamos os melhores amigos do quartel nem inimigos figadais. Nos toleramos. No entanto, devo-lhe esta lição: uma mão estendida pode ter mais impacto do que um murro bem dado.

A pedagogia dos corrompidos