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quinta-feira, agosto 12, 2010

Dia da Mentira - Parte 2

- Pois não? - animou-se o juiz.
- Tenho de corrigir meu depoimento - asseverou o réu.
- Como assim?
- Eu havia dito ao outro juiz que não era responsável pela morte de uma pessoa. Não era verdade. Assumo o que fiz.
- Mas o que fez o senhor mudar de ideia?
- Sabe, doutor, na cadeia me converti. E não quero saber de carregar esta culpa toda para sempre. Quero pagar tudo aqui mesmo e ficar quites.
- Muito bem. Mas por que o senhor matou...(consultando os autos)...fulano?
- Ele devia grana para mim. E eu tinha um nome a zelar, né doutor? A gente tem de impor respeito nesse negócio de drogas, se não os "nóia" dão "cambau" na gente.
- E o que o senhor fez?
- Amarrei ele no para-choque do carro e o arrastei para cima e para baixo pela vila.
- E o senhor quer que essa confissão conste dos autos?
- Sim, o senhor conta para o outro juiz?
- Claro, um momento (sai da sala e liga para o outro magistrado). Siclano, tudo bem? É sobre o caso do Beltrano. Ele acaba de confessar um crime e pede para acrescentar nos autos. Você pode dar um pulo aqui, no meu gabinete?
- Agora não posso. Estou no meio do tribunal. Tome nota para mim, por favor, depois resolvo! Obrigado.
Assim procedeu o magistrado em favor do colega e mandou recolher o réu confesso ao xadrez. O traficante estava resignado, a mansidão em pessoa.
Naquele Dia da Mentira foi a primeira vez que aquele juiz ouviu uma verdade.

segunda-feira, março 22, 2010

O juiz e o alienígena

Uma quadrilha de assaltantes foi desmantelada pela justiça. A maioria, imigrantes.
Na audiência com dois deles, o interrogatório estava difícil.

- No hablamos portugués! - argumentava o que parecia o líder.

- Que pena, disse o juiz para o escrivão. Eu estava para libertá-lo. Agora teremos de marcar uma nova audiência com presença de um intérprete para daqui a três meses.

O réu pensou um pouquinho e lascou essa:

- Pero si hablan despacio puedo entender...

O juiz remarcou nova audiência dentro de seis meses.

terça-feira, março 16, 2010

O juiz e o lunático

Um infeliz foi pego roubando um estojo de canetinhas coloridas. Preso em flagrante, foi recolhido e, tempos depois, levado a julgamento.

- Para que o senhor roubou as canetas ? - perguntou o juiz (aquele mesmo que comeu a cabra).

- Para escrever - respondeu o réu.

Pela resposta, o juiz percebeu que o rapaz era prejudicado. Apertou aqui e ali e descobriu que o sujeito veio do nordeste com promessa de acolhida e trabalho. Não conseguiu nem um nem outro e foi para debaixo da ponte. Vivia do acaso e do alheio.
O magistrado sentiu pena. Era mais um caso para a assistência social do que para o xadrez. Enquanto ditava para o escrivão, o pobre diabo pediu licença.

- Doutor, o senhor vai me soltar?

- Se o senhor não me interrromper de novo, vou.

- O senhor pode me deixar preso até dezembro? - indagou o réu.

Era ainda setembro. O juiz estranhou o pedido e o rapaz desabafou:

- No começo eu sofria muito na cadeia. Mas agora está bom. Tem até água quente na cela. E depois vão servir peru no Natal. O senhor já comeu peru?

Comovido, o magistrado mandou um funcionário comprar um sanduíche de peito de peru para ele. Não tinha, voltou com um churrasco grego. Para não estragar a surpresa, não contaram isso ao preso, que lambeu os beiços.

Na saída da audiência, fizeram uma vaquinha e deram algum dinheiro para o pobre coitado.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

O juiz e a cabra - parte 3

O juiz pensou por alguns segundos. O que será que ele quiz dizer com aquilo? Teria suspeitado de algo?

- Como assim não é sua? O senhor mesmo a reconheceu. Trouxe até testemunhas que confirmaram a identidade da cabra – disse o juiz, tomando a dianteira naquela perigosa conversa. – Ou o senhor e as testemunhas disseram inverdades?

- Não, doutor. Eu tinha reconhecido a cabra porque parecia mesmo a minha cabra. Mas depois eu vi que não era. Ela é diferente. Por isso estou devolvendo.

- Mas, homem, esses bichos mudam mesmo. Essa experiência de ter ficado longe do senhor, de casa, deve ter abalado um pouco a bichinha. Vai ver foi algo que ela comeu por aí... Logo, logo, passa. Devolva, não. Pode levar.

- Doutor, mudança pouca até entendo. Mas acontece que uma cabra não pode diminuir de tamanho. Essa é menor que a minha cabrinha!

O juiz não sabia que sistema métrico ou que elemento de referência o camponês usava para medir seus animais, mas o instinto de honestidade daquele homem poderia causar problemas. Se ele levasse adiante a questão, iria chamar a atenção do povo e seria necessário tomar providências... Bem que seu pai dizia para ele fazer concurso para cartorário. Lidar com papel é menos complicado do que lidar com gente. O papel aceita tudo. Basta uns carimbos aqui e acolá...

- Doutor, posso deixar a cabrinha aqui, então? Ou levo para a delegacia? perguntou o cidadão, querendo trazer um pouco de prática ao diálogo.

O juiz, cercando o homem, foi direto ao ponto. – Impossível devolver. Ou o senhor leva essa cabra já ou fica sem cabra nenhuma, entendeu?

O matuto entendeu o recado e levou a cabra embora, deixando o magistrado a sós com a justiça dos homens.

Fim

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

O juiz e a cabra - parte 2

O juiz ficou atônito com a informação de que havia comido a cabra em poder da força policial e que deveria ser restituída ao dono.

- Tem algum problema, doutor? – perguntou um dos dois policias que guarneciam a cidade.

- Se a palavra “peculato” significa algo para vocês dois, tem – respondeu o magistrado, antevendo problemas.

- O que faremos então, doutor? O dono do animal que virou churrasco vai reclamá-lo na delegacia.

- Comprem uma cabra igualzinha e dêem para ele. Nem vai perceber a diferença. Vão, vão, depressa!

A dupla seguiu em diligência. Mais tarde, procuraram o juiz:

- Doutor, tudo em ordem. Reposição feita.

No dia determinado, o dono compareceu à delegacia e resgatou a cabrinha.

O juiz suspirou aliviado e retomou o seu expediente de uma hora diária.

Poucos dias depois, chamam o magistrado no gabinete:

- Doutor, tem um cidadão aqui querendo falar com o senhor (cidade pequena é assim, não precisa marcar hora).

- Mande entrar, disse o juiz.

- Ele não pode. Quer conversar com o senhor aqui fora.

- Como não pode? Não precisa ter cerimônia (a cidade era tão pequena e ordeira que quando o juiz entrava no restaurante, todos se levantavam).

- Ele pode, quem não pode é a cabra. Ela pode fazer feio aí dentro.

O juiz ficou surpreso. O que aquele sujeito queria com ele? E ainda trouxe a cabra... Na certa, queria agradecer, trazia algum litro de leite de cabra, essas coisas. O povo daquela cidade era muito dado a essas gentilezas para com as autoridades. Levantou-se e foi à porta.

- Tarde, doutor.

- Tarde. O senhor queria me ver?

- Sim. Sabe o que é doutor? Não posso ficar com essa cabra.

- Uai, homem, por quê?

- Essa cabra não é minha.

Fim da parte 2. Continua...

domingo, fevereiro 07, 2010

O juiz e a cabra - parte 1

O juiz havia se instalado há poucos meses numa cidadezinha do interior quando, um dia, um cidadão apareceu com uma cabra no Fórum.
- Dr., achei essa cabra, não sei o que fazer com ela.
Finalmente algo acontecia naquela cidade marasmenta, pensou o magistrado.
- Despachem o animal para delegacia e tomem conta dela até que o dono apareça - ordenou o togado à força policial, constituída de dois homens.
Manda quem pode e obedece quem tem juízo, o animal foi depositado nos fundos da delegacia.
Dias depois, apareceu um homem no Fórum reclamando o animal.
- Seu juiz, soube que acharam a minha cabrinha. Vim levá-la de volta!
- Um momento, meu senhor. Não é bem assim! Vamos marcar uma audiência, o senhor traz as testemunhas e só depois de comprovar que ela é sua poderá levá-la.
Audiência marcada, testemunhas ouvidas, a cabra era mesmo do homem. Após esgotar todas as formalidades do trâmite, finalmente o representante da Justiça deliberou:
- Pode comparecer à delegacia para levar sua cabra embora.
No final do expediente daquela dia - o juiz entrava 12h45 e saía 13h45 - a força policial o aguardava.
- Doutor, podemos lhe falar?
- Claro, fiquem à vontade...
- Lembra aquele churrasco que fizemos?
- Sim.
- Que o senhor também comeu?
- Lembro. O que tem ele?
- O churrasco era a cabra.

A pedagogia dos corrompidos