O juiz pensou por alguns segundos. O que será que ele quiz dizer com aquilo? Teria suspeitado de algo?
- Como assim não é sua? O senhor mesmo a reconheceu. Trouxe até testemunhas que confirmaram a identidade da cabra – disse o juiz, tomando a dianteira naquela perigosa conversa. – Ou o senhor e as testemunhas disseram inverdades?
- Não, doutor. Eu tinha reconhecido a cabra porque parecia mesmo a minha cabra. Mas depois eu vi que não era. Ela é diferente. Por isso estou devolvendo.
- Mas, homem, esses bichos mudam mesmo. Essa experiência de ter ficado longe do senhor, de casa, deve ter abalado um pouco a bichinha. Vai ver foi algo que ela comeu por aí... Logo, logo, passa. Devolva, não. Pode levar.
- Doutor, mudança pouca até entendo. Mas acontece que uma cabra não pode diminuir de tamanho. Essa é menor que a minha cabrinha!
O juiz não sabia que sistema métrico ou que elemento de referência o camponês usava para medir seus animais, mas o instinto de honestidade daquele homem poderia causar problemas. Se ele levasse adiante a questão, iria chamar a atenção do povo e seria necessário tomar providências... Bem que seu pai dizia para ele fazer concurso para cartorário. Lidar com papel é menos complicado do que lidar com gente. O papel aceita tudo. Basta uns carimbos aqui e acolá...
- Doutor, posso deixar a cabrinha aqui, então? Ou levo para a delegacia? perguntou o cidadão, querendo trazer um pouco de prática ao diálogo.
O juiz, cercando o homem, foi direto ao ponto. – Impossível devolver. Ou o senhor leva essa cabra já ou fica sem cabra nenhuma, entendeu?
O matuto entendeu o recado e levou a cabra embora, deixando o magistrado a sós com a justiça dos homens.
Fim

