Decidido a escrever minhas memórias do serviço militar obrigatório, fui atrás de alguns colegas de quartel. Comecei pelo 1012 (no quartel, éramos tratados por números e 1012 é um número fictício, claro). Nós servimos numa unidade policial e ele fazia parte do canil. Com certeza deveria ter alguma história interessante para contar, além de detalhar para mim como era o trato e adestramento dos animais.
Peguei o álbum de formatura e liguei para o telefone que constava do perfil dele. Atendeu uma senhora.
- Alô! Boa-tarde. Meu nome é Marcelo. O 1012 está?
- Quem quer falar com ele? - respondeu minha interlocutora, assustada.
- Meu nome é Marcelo. Servimos no Exército na mesma época. Estou retomando o contato para ter notícias dele.
- Faz tempo que não fala com ele, não é mesmo? - continuou, desconfiada.
- Sim, senhora. Assim que dei baixa me afastei do pessoal e evitava tudo que fosse verde-oliva porque as lembranças do quartel eram - e ainda são - muito dolorosas. Até hoje ainda tenho pesadelo! Mas nesses dias bateu uma saudade da turma e resolvi ligar. Seu filho est...?
A mulher desabou ao telefone antes de eu concluir a frase. Pelo visto, eu não era o único que vivia assombrado pelo passado. Lutando contra lágrimas e soluços, me explicou que o 1012 - um Golias em tamanho e uma candura em pessoa - havia apresentado um quadro severo de diabetes após a baixa do serviço militar.
O curioso é que não lembro dele ter comentado sobre essa doença. Creio que nem teria sido convocado se tivesse qualquer sintoma parecido com isso. O caso é que, além da gravidade de seu quadro de saúde, ele também teria negligenciado o tratamento e morreu, de acordo com a mãe.
Eu me senti o canalha-mor por fazer aquela mãe ruminar o luto novamente. E tem colegas jornalistas que, intencionalmente, vivem de explorar a dor alheia para alavancar alguns pontos na audiência ou vender mais alguns exemplares. É de um vampirismo atroz. Dou graças a Deus por não ter de fazer isso para sobreviver.
Pedi mil desculpas à mãe dele e desliguei o telefone.
Nem sempre convém revolver o passado.
E foi assim que meu projeto de memórias da caserna voltou para a gaveta.
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