As mídias sociais vão arrancar uma das mais belas pétalas da Flor do Lácio - a saudade, palavra tida como sem similar em outro idioma. Numa sociedade liquefeita, como sugere Bauman, este termo está perdendo todo o sentido original uma vez que a ubiquidade nos meios digitais vence qualquer barreira geográfica e até temporal.
Boa parte da humanidade economicamente ativa mantém on line algum tipo de registro pessoal (imagens estáticas, áudios, videos, textos) que pode ser resgatado a qualquer momento por entes queridos - e outros nem tanto - a qualquer hora do dia e da noite, ao menor sinal do sentimento primordial que deu origem ao termo em latim "solicitatem" e que depois foi adotado pela lingua portuguesa como "saudade".
Mesmo se apertar a necessidade de materializar a memória do objeto ou pessoa da qual sente falta, estão aí as impressoras 3D, que, como um gênio da garrafa, ou deus ex-machina, podem realizar tais desejos num passe de mágica. Com um "clic" aciona-se a usinagem e pronto: o busto da pessoa almejada ou uma réplica em resina de uma arma de época tangibiliza-se para matar a saudade - ops! - quero dizer, vontade.
E é isso mesmo, a saudade, aquele sentimento de algo inalcançável momentaneamente vai dar lugar a palavra vontade, que pode ser satisfeita imediatamente, ainda que por meios artificiais.
Numa sociedade em estado de liquefação não é de se estranhar que a saudade também seja pasteurizada, como as proprias relações sociais.
Pois é pessoal, até a saudade está em desuso.
O próximo passo será tornar o ser humano obsoleto e descartável.
Espera aí...

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