sexta-feira, agosto 03, 2012

Kafka Ltda


Um dos livros mais angustiantes que já li foi O Processo, de Franz Kafka (1883-1924). É como viver um um pesadelo acordado. Nessa obra, o personagem Joseph K. é acusado de um crime que ignora, julgado e condenado arbitrariamente. Aliás, Kafka tinha uma obsessão: retratar personagens vítimas das circunstâncias ou de sistemas despóticos de poder. Em a Metamorfose, outro exemplo, o protagonista Gregor Samsa simplesmente desperta transformado em um grande inseto!


Kafka é tido como um dos autores mais influentes da literatura ocidental. No entanto (os críticos que me perdoem a audácia), a influência deste celibatário escritor não foi mapeada em toda a sua extensão. Essa interferência transcende os limites fantasiosos dos livros. O modelo kafkaniano de status quo foi adotado e perpetuado pela sociedade, tendo se infiltrado, inclusive, nas células familiares e mitocôndrias organizacionais.


Toda organização, pública ou privada, cujo poder jorra torrencialmente de forma unidirecional, geralmente no sentido descendente, é kafkaniana por excelência. Empresas e instituições, que tomam decisões arbitrárias, ignoram o diálogo e o direito à defesa em seus processos diversos, na relação com os mais variados stakeholders, emulam com maestria a obra desse escritor germânico, consciente ou inconscientemente, todos os dias.


Basta olhar ao redor. Os exemplos pululam como pipocas no microondas.


Não estranhe se um dia acordar com “um dorso duro e inúmeras patas”.

Celular corporativo


segunda-feira, julho 30, 2012

O "próximo": uma espécie em extinção

Cientistas dizem que aproximadamente 150 a 200 espécies de plantas insetos, pássaros, peixes ou mamíferos vão para o beleléu a cada 24 horas. Bem, podem acrescentar "o próximo" na lista de candidatos à extinção porque, paulatinamente, temos nos esforçado bastante para se livrar desse entulho antropológico.

Na Pré-História, os nossos ancestrais, os *pitecus, viviam em bandos, vandalizando árvores e catando piolhos um dos outros.

Mas as copas ficaram muito muvucadas, e parte dos nossos parentes tiveram de ralar no chão em busca de comida. Nessa fase, entre dilúvios e eras glaciais, surgiram as tribos e a bebida alcoólica, não necessariamente nessa ordem.

Alguns milhares de anos depois, com a revolução industrial,  podamos mais alguns galhos da árvore genealógica para facilitar o trabalho dos censores. A configuração familiar básica ficou restrita à clássica papai-mamãe-filhinhos.

Atualmente, o trabalho do censo ficou ainda mais fácil.
Não temos mais nem interesse em perpetuar a espécie.

A verdade é que a relação com o próximo está tão desgastada quem nem suportamos mais a presença física de outro ser humano. Quem vai feliz para a reunião de condomínio? Ou de pais e mestres? Da Associação de Amigos do bairro? Da missa de domingo? Viram?

Num mundo superlotado, queremos mesmo é distância do semelhante.

Quanto mais virtualizado o contato com o próximo, melhor. É por isso que preferimos trocar ideias por intermédio de engenhocas eletrônicas, como "smartphones",  "redes sociais" e tabuletas.

Depois que eliminarmos "o próximo",  finalmente descansaremos em paz.  

"Comédias para família"


A pedagogia dos corrompidos