terça-feira, outubro 06, 2015

Saudade: sentimento com os dias contados

As mídias sociais vão arrancar uma das mais belas pétalas da Flor do Lácio - a saudade, palavra tida como sem similar em outro idioma. Numa sociedade liquefeita, como sugere Bauman, este termo está perdendo todo o sentido original uma vez que a ubiquidade nos meios digitais vence qualquer barreira geográfica e até temporal.

Boa parte da humanidade economicamente ativa mantém on line algum tipo de registro pessoal (imagens estáticas, áudios,  videos, textos) que pode ser resgatado a qualquer momento por entes queridos - e outros nem tanto - a qualquer hora do dia e da noite, ao menor sinal do sentimento primordial que deu origem ao termo em latim "solicitatem" e que depois foi adotado pela lingua portuguesa como "saudade".

Mesmo se apertar a necessidade de materializar a memória do objeto ou pessoa da qual sente falta, estão aí as impressoras 3D, que, como um gênio da garrafa, ou deus ex-machina, podem realizar tais desejos num passe de mágica. Com um "clic" aciona-se a usinagem e pronto: o busto da pessoa almejada ou uma réplica em resina de uma arma de época tangibiliza-se para matar a saudade - ops! - quero dizer, vontade.

E é isso mesmo, a saudade, aquele sentimento de algo inalcançável momentaneamente vai dar lugar a palavra vontade, que pode ser satisfeita imediatamente, ainda que por meios artificiais.

Numa sociedade em estado de liquefação não é de se estranhar que a saudade também seja pasteurizada, como as proprias relações sociais.

Pois é pessoal, até a saudade está em desuso.

O próximo passo será tornar o ser humano obsoleto e descartável.

Espera aí...



terça-feira, setembro 29, 2015

O terno

Desconfio, mas não posso afirmar com certeza, que descobri o motivo que leva os homens de negócio a usar terno. Não é só pela elegância, pois outros tipos de roupa são tão elegantes quanto e muito mais confortáveis, ainda mais em um país tropical como o Brasil.

Sem levar em consideração qualquer pesquisa acadêmica e partindo apenas de uma análise semiótica leviana, defendo a tese de que os homens de negócio usam terno por medo. Como se o conjunto todo fosse uma armadura.

Quais evidências sustentam a minha tese? Bem, em primeiro lugar, o terno é guardado no armário. Antigamente, este móvel era usado para guardar armas e, com o tempo, cedeu lugar às roupas. Se prestarmos bem atenção, o terno envolve todo o corpo do executivo, deixando apenas os pés e a mãos de fora, como a couraça de um tatu..

Complementa o terno um acessório chamado gravata. O formato da gravata lembra uma espada, lança ou flecha. É óbvia também a semelhança com um falo. Aliás, a palavra gládio (espada curta) lembra glande, a ponta do pênis.

Pelo exposto, os homens de negócio usam o terno com a finalidade de se proteger e de reforçar a masculinidade perante os outros.

Acredito que o mundo será muito mais leve e terno quando o terno for aposentado...

A pedagogia dos corrompidos